quinta-feira, 2 de março de 2017

Por que as pessoas não devem ser deportadas se estão "ilegais"?



Ao longo dos anos, descobri que alguns católicos se opõem à presença de imigrantes ilegais nos Estados Unidos perguntando: "Que parte de ilegal você não entendeu?".

A reportagem é de Sean Carroll, publicada por Crux, 23-02-2017. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

É verdade que as pessoas que atravessam a fronteira EUA-México infringem a lei. Ao mesmo tempo, descobri a importância de contextualizar esta escolha e este ato.

Na Kino Border Initiative, o nosso ministério se direciona a migrantes em Nogales, Sonora, do outro lado da fronteira da cidade homônima Nogales, Arizona. Cerca de 70 por cento dos imigrantes relatam que cruzam a fronteira por razões econômicas. Eles literalmente não conseguem sustentar suas famílias no México, na América Central ou no Haiti.

As famílias deparam-se com uma decisão dolorosa: esperar por um visto durante anos ou atravessar a fronteira ilegalmente para estar com seus entes queridos.

Cerca de 17 por cento dos imigrantes vêm por estarem separados de seus filhos, cônjuges e outros membros da família, enquanto cerca de 9 por cento foge da violência, no México e na América Central. Cada país tem o direito de proteger suas fronteiras, mas, como nos lembra a Doutrina Social da Igreja, as pessoas também têm o direito de migrar se não conseguem ter uma vida digna no seu país de origem.

Nosso sistema atual impede nossos vizinhos de procurar uma vida digna devido a restrições nos vistos de trabalho e por motivos familiares. Também é extremamente difícil conseguir asilo nos Estados Unidos nos casos dos que estão fugindo da violência criminal, política ou do Estado em seus países de origem.

Muitos destes migrantes adorariam entrar nos Estados Unidos legalmente, mas não têm condições de estar em conformidade com a lei de imigração atual nos EUA. Essa realidade reflete a fragilidade de nosso sistema de imigração. O fato é que para muitas pessoas sem qualificação profissional ou dinheiro não há caminhos para a imigração legal.

Um sistema falido torna a unificação familiar uma provação desnecessária. De acordo com o boletim de vistos do Departamento de Estado dos EUA, por exemplo, pedidos de vistos de filhos solteiros mexicanos de cidadãos norte-americanos feitos antes de 01 de junho de 1996 ainda estão em análise. Isto significa que eles esperaram por uma resposta por décadas, devido aos limites anuais estabelecidos pelo governo dos EUA desta categoria de visto para os mexicanos. As famílias deparam-se com uma decisão dolorosa: esperar por um visto durante anos ou atravessar a fronteira ilegalmente para estar com seus entes queridos.

A lei dos EUA impede os imigrantes de encontrar uma vida digna, que é um desejo de Deus para todos nós. Ela obriga-os a procurarem lugares longínquos da fronteira, arriscando-se a serem roubados, assaltados e mortos no deserto. Mantém famílias separadas e impede homens, mulheres e crianças imigrantes de encontrar segurança no abrigo dos Estados Unidos.

Dom John Wester, líder da Diocese de Santa Fé, no Novo México, disse que não é uma questão de os imigrantes estarem desrespeitando as leis ou não, mas de as lei estarem desrespeitando os imigrantes. Em vez de focar em métodos de imposição que punem aqueles que já vivem e trabalham entre nós - e seus filhos - deveríamos pensar em mudanças na lei de imigração dos EUA, para que ela respeite a dignidade humana dos imigrantes, um valor que prezamos tanto como católicos quanto como estadunidenses.



ihu


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